Sandra Pêra trata obra de Belchior como dramaturgia no segundo álbum solo

Popstar na segunda metade da década de 1970, como integrante do grupo feminino As Frenéticas, a atriz, cantora e compositora carioca Sandra Pêra tem a voz na discografia de Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017). Sobre o groove funkeado que embasa a gravação da música Corpos terrestres (Belchior, 1978), faixa do álbum Todos os sentidos (1978), as Frenéticas cantam em latim.

Símbolo de irreverência e leveza pop em anos pesados, As Frenéticas perderam fôlego nos anos 1980 – assim como o cancioneiro do cantor e compositor cearense. Sandra Pêra tentou carreira solo como cantora em álbum editado em 1983 com repertório autoral pautado pelas parcerias da artista com Guilherme Lamounier (1950 – 2018) e, diante do fracasso comercial do disco, passou a lucrar a vida como atriz de teatro, sobretudo de musicais.

Por isso mesmo, é no mínimo curioso que o segundo álbum solo da artista – Sandra Pêra em Belchior, lançado neste mês de junho de 2021 pela gravadora Biscoito Fino, 38 anos posteriormente o pouco ouvido LP Sandra Pêra (1983) – reconecte a cantora ao cancioneiro de Belchior.

Com obra angustiada que denotava o peso da cabeça do artista, como o próprio compositor sinalizou nos versos iniciais da música Todo sujo de batom (1974), uma das 11 músicas do disco sugerido a Sandra por Kati Almeida Braga, Belchior deixou cancioneiro que exige alma dos intérpretes que se propõem a dar voz a essas músicas.

No fecho do álbum, Sujeito de sorte reaparece em coro com as vozes de Amora Pêra, Paula Leal, Isadora Medella, Ana Basbaum, Eliane Sobral, Lucas Ariel, Daniel Alcoforado e Jose Milton. É como se o fim do disco fosse o encerramento, o gran finale, de um musical de teatro, como tantos de que Sandra Pêra participou.

E talvez seja mesmo, pois o álbum Sandra Pêra em Belchior parece ter sido concebido – talvez até intuitiva ou inconscientemente – como a trilha sonora de músico protagonizado pela intérprete e alicerçado pela dramaturgia sólida do cancioneiro do compositor na década de 1970.