Raul Seixas tem virtudes e vícios expostos em livro que relata união do artista com Kika Seixas

Carioca nascida em 1952, a produtora Angela Maria de Affonso Costa é honesta ao antecipar a natureza do livro Coisas do coração no subtítulo Minha história com Raul Seixas.

Kika Seixas – como a produtora é conhecida no universo pop brasileiro – apresenta relato pessoal, assinado com Toninho Buda, sobre a história de paixão que viveu com Raul Santos Seixas (28 de junho de 1945 – 21 de agosto de 1989) de 1979 a 1984.

Mote do relato biográfico de Kika, a história dessa paixão foi embaçada pelo alcoolismo do cantor e compositor baiano, um dos pilares do rock brasileiro dos anos 1970. Em jorro memorialista aparentemente sincero, Kika Seixas expõe vícios e virtudes de Raul Seixas sem açúcar, mas com afeto.

A narrativa apresenta Raul como marido dedicado e pai extremamente amoroso de Vivian Costa Seixas – a filha nascida em maio de 1981 da união do artista com Kika – em harmonia quebrada somente pelo efeito do álcool.

Atualmente com 40 anos, Vivian se tornou a DJ Vivi Seixas, uma das herdeiras do baú do Raul administrado por Kika com zelo a partir da organização do acervo que foi entregue a Kika pela mãe do artista, Maria Eugênia, em outubro de 1989, dois meses depois de a morte do Maluco beleza.

Sem a pretensão de apresentar biografia formal e imparcial do cantor, papel cumprido há dois anos pelo jornalista Jotabê Medeiros com a edição do livro Raul Seixas – Não diga que a música está perdida (2019), Kika Seixas abre para o leitor as portas das casas em que viveu com o artista ao longo de cinco anos de relação turbulenta.

O álcool é o vilão nessa história romanceada por Kika com a informação de que ficou fascinada por Raul ao vê-lo ao vivo no show de lançamento do primeiro álbum solo do cantor, Krig-ha, bandolo!, em 1973, quando ainda nem sonhava em conhecer o artista e se unir a ele.

O namoro começou somente seis anos mais tarde, em 1979, quando Kika foi trabalhar na WEA, gravadora pela qual Raul lançou os álbuns O dia em que a terra parou (1977), Mata virgem (1978) e Por quem os sinos dobram (1979) em período em que a carreira já começava a sair dos trilhos.

Para quem se interessa mais pela obra do que pela vida pessoal do artista, o livro de Kika seduz quando descortina os bastidores do processo de geração dos álbuns Abre-te, sésamo (1980), Raul Seixas (1983) e Metrô linha 743 (1984) – período em que o cantor vivenciou altos e baixos na carreira por conta de doenças decorrentes do alcoolismo, o que provocou sobretudo problemas no cumprimento da agenda de shows.

Com base em números de vendagens de discos, Kika Seixas defende no livro a força da obra fonográfica construída por Raul na década de 1980 em relação ao cancioneiro dos anos 1970. Números são números e de fato Raul conquistou vendeu mais discos a partir de 1980. De todo modo, a influência e qualidade atemporal de álbuns antológicos como Novo aeon (1975) e o já citado Krig-ha, bandolo! (1973) nunca podem ser dimensionadas por cifras mercadológicas.

Mas o que mais importa no livro Coisas do coração são as histórias de Kika com Raul nos cinco anos de convívio in(tensa) pela força do amor e pelo poder destruidor do álcool. É como se o livro fosse um cotidiano, escrito por Toninho Buda de forma coloquial a partir de 80 horas de depoimentos gravados por Kika.

A rigor, aliás, o livro resultou em grande testemunho de Kika sobre Raul Seixas. Não há entrevistados. O leitor enxerga Raul somente pela ótica de Kika Seixas, embora a autora ousadamente reproduza cartas, em um dos anexos alocados ao fim do livro, em que nem sempre é retratada como a mocinha dessa história de paixão.

Talvez porque, na narrativa emotiva do livro, não haja mocinhos nem vilões (exceto o álcool, algoz do artista), mas seres humanos apaixonados tentando se harmonizar cotidianamente com as coisas do coração, as trapaças da sorte e as graças de paixão que, pelo relato afetuoso de Kika Seixas, parece resistir ao tempo.