Que nobreza tem Jussara Silveira ao cantar com a voz do coração em show online!

Herdeira da voz matricial de Gal Costa, mas inteligente o suficiente para escolher repertório já eventualmente revisitado pela própria Gal nos palcos, Jussara Silveira reiterou a fidalguia do canto no show online A voz do coração, apresentado na noite de segunda-feira, 26 de abril, no canal da artista no YouTube.

Ainda que o roteiro tenha incorporado novidades, como Três (2006), última grande música da parceria de Marina Lima com Antonio Cicero, A voz do coração se revelou quase um remake de Ame ou se mande, show de 2011 que deu origem ao sexto álbum de Jussara, também intitulado Ame ou se mande e editado em novembro daquele ano de 2011.

Dez anos depois, a cantora celebrou em cena a primeira década do encontro harmonioso com o ritmista Marcelo Costa e o pianista Sacha Amback, produtores musicais do show.
A parceria do trio se estendeu por mais dois discos, Flor bailarina – Canções de Angola (gravado e editado em 2011 sob encomenda para empresa, tendo sido lançado comercialmente em 2013) e Pedras que rolam, objetos luminosos (2015), dois títulos da congruente obra fonográfica de Jussara Silveira.

No palco, Jussara, Marcelo e Sacha deram show de bom gosto, indo direto ao ponto das 16 canções que, somados a dois poemas, formaram o roteiro do show A voz do coração. Título que, aliás, se revelou combinado quando Jussara Silveira seguiu o fio emotivo e sem meada dos versos da música O nome da cidade (Caetano Veloso, 1984), outra grande novidade na voz da cantora.

Jussara Silveira sabe ir n0 espírito das canções – e esse entendimento pleno valoriza e legitima a formosura da voz afinada, de emissão límpida.
É preciso ser grande cantora para derrotar o também grande Ney Matogrosso no jogo interpretativo de Dama do cassino (1988), tomando para si – a partir de gravação de 1994 – a música que o recorrente Caetano cedeu para Ney e que Jussara reviveu no show online.

No palco, a dama encontra sempre o jeito de dar o recado dos compositores a que dá voz. Em cena, com o acompanhamento elegante de Marcelo Costa e Sacha Amback (ambos precisos nos toques dos respectivos instrumentos, sem firulas para invocar a atenção para as presenças deles), Jussara se saiu vitoriosa no jogo de amor armado em Ifá (Cezar Mendes e José Carlos Capinan, 2011), ao encarar as rimas de Babylon (Zeca Baleiro, 2000) e ao captar a leveza apaixonante de Contato inesperado (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, 2006), música tribalista esquecida em disco de Arnaldo Antunes.

Mesmo de cepas distintas, as músicas do show A voz do coração se irmanaram sob o canto de Jussara Silveira, intérprete que lembrou de Ludo real (Chico Buarque e Vinicius Cantuária, 1987) ao gravar em 1996 o primeiro álbum, Jussara Silveira, editado em 1997. Recordação justificada na apresentação online pela bela versão da cantora.
Sempre no tom, Jussara Silveira foi a voz cristalina do coração neste show filmado em alta definição para seis paulatinas exibições em canais do YouTube e em canais de TV (a de ontem foi somente a primeira e já saiu do ar).
Não fossem a decisão de incumbir a récita de poema a Marcelo Costa, inábil para a tarefa, o show de uma hora e quatro minutos teria resultado irretocável porque cantora e músicos se harmonizaram – mais uma vez – no formato minimalista sem jogar nota fora. E, por isso mesmo, cabe enfatizar: que nobreza tem Jussara Silveira!