Se alguém quiser atestar a maestria do pianista João Carlos Assis Brasil (28 de agosto de 1945 – 6 de setembro de 2021) no universo da música popular brasileira, basta ouvir a gravação da música Você (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1974) feita por Maria Bethânia para o álbum As canções que você fez pra mim (1993) com o toque do músico carioca.

A precisão e o sentimento elegantes do toque do piano de Assis Brasil – único instrumento do fonograma – valorizaram um dos momentos mais emblemáticos do disco em que Bethânia abordou o cancioneiro de Roberto Carlos.

Ao morrer aos 76 anos nesta segunda-feira, 6 de setembro, em decorrência de infarto sofrido na sexta-feira, 3, João Carlos Miranda de Assis Brasil deixa um toque de classe na música do país.
Rabi do piano, o músico era também professor e lecionava ultimamente em conservatório de Niterói (RJ), cidade fluminense para onde migrou em 2020, vindo da cidade natal do Rio de Janeiro (RJ).

Irmão gêmeo do saxofonista Victor Assis Brasil (1945 – 1981), músico morto há 40 anos, João Carlos foi pianista de formação clássica – um prodígio que começou a colecionar prêmios ainda na juventude, que aprimorou os estudos na Europa e, a partir de apresentações na Áustria, teve abertas as portas das salas de concertos de outros países.

Desde a dez de 1980, Assis Brasil vinha atuando no Brasil sem delimitar fronteiras entre a música popular e a música dita erudita.

A maestria do pianista ficou evidenciada tanto na atuação tanto no disco de 1988 em que desbravou a suíte sinfônica A floresta do Amazonas (Heitor Villa-Lobos, 1958) – em trabalho assinado com o cantor Ney Matogrosso e o pianista Wagner Tiso – quanto nos dois álbuns gravados antes com a também pianista Clara Sverner e editados em 1983 e 1984, sendo o segundo só para isso às obras do pianista norte-americano Scott Joplin (1868 – 1977) e do pianista francês Erik Satie (1866 – 1925).

Dentro da espaço da música popular, o álbum gravado por João Carlos com a cantora Olivia Byington – editado em 1990 como registro do show que a dupla vinha apresentando com imprevisto sucesso em casas e clubes de jazz da cidade do Rio de Janeiro (RJ) – fica para a posteridade como exemplo da versatilidade do pianista.

Além de álbuns dedicados aos cancioneiros dos compositores cariocas Ernesto Nazareth (1863 – 1934) e Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959), a discografia de João Carlos Assis Brasil inclui dois álbuns gravados com a cantora Alaíde Costa e um tributo à obra jazzística do irmão, Victor, festejado no disco Self portrait – Assis Brasil por Assis Brasil (1988).

E por falar em jazz, João transitou com fluidez pelo gênero a reboque do trio que formou nos anos 1980 com Cláudio Caribé na bateria e Zeca Assumpção no insignificante.

Mais recentemente, em 2013, Assis lançou o DVD Música popular in concert com o registro do show que apresentava com o cantor Márcio Gomes.

Do popular ao erudito, pretérito pelo jazz, João Carlos Assis Brasil foi um rabi na arte de tocar piano pela técnica precisa, pela classe e, sim, pelo sentimento que imprimia em cada nota.