Peru vai às urnas para optar presidente com eleitorado extremamente indeciso e fragmentado

Dezoito candidatos concorrem à presidência, mas nenhum deles ultrapassa 10% das intenções de voto. Não há predilecto, e as últimas pesquisas mostram que cerca de 30% dos eleitores estão indecisos, e 20% a 25% pretendem votar em branco ou anular o voto. Seis dos 18 candidatos a presidente do Peru (em sentido horário): Veronika Mendoza, Hernando de Soto, George Forsyth, Rafael Lopez Aliaga, Keiko Fujimori e Yohny Lescano

Depois de verem quatro presidentes passar pela função desde 2018, cerca de 25 milhões de eleitores peruanos são convocados mais uma vez às urnas neste domingo (11) para escolher um novo dirigente de Estado e renovar as 130 cadeiras do Congresso. Nenhum pretendente é favorito. As últimas pesquisas mostram que cerca de 30% dos eleitores estão indecisos, e 20% a 25% pretendem votar em branco ou anular o voto.
Estas são as eleições mais fragmentadas da história do país andino: 18 candidatos concorrem à presidência, mas nenhum deles ultrapassa 10% das intenções de voto.
Devido à margem de erro das pesquisas, eles podem estar até aquém desse desempenho. Do total, dez aspirantes ao Palácio do Governo são de direita ou centro-direita, quatro de esquerda, três nacionalistas e um de centro.

Sete presidenciáveis têm a possibilidade de chegar ao segundo turno previsto para 6 de junho. São eles:
o ex-parlamentar Yonhy Lescano (centro-direita);
a antropóloga Verónika Mendoza (esquerda);
o economista Hernando de Soto (direita);
Keiko Fujimori (populista de direita);
o ex-jogador de futebol George Forsyth (centro-direita);
o professor e sindicalista Pedro Castillo (esquerda radical);
e o empresário Rafael López Aliaga (extrema direita).

“Não há muita diferença entre os candidatos e nenhum domina amplamente as intenções de voto ”, nota Arthur Morenas, pesquisador em Ciências Políticas associado ao Instituto Francês de Estudos Andinos (IFEA) e ao Instituto das Américas.
O grave exalo do eleitorado pode ser explicado pelos múltiplos escândalos de prevaricação, principalmente o caso Odebrecht, que afetou o país nos últimos anos e minou o crédito dos peruanos. “Toda a classe política, da direita à esquerda, recebeu propina”, lembra Alberto Vergara, professor do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade do Pacífico em Lima.
Para Arthur Morenas, a prevaricação continua sendo uma grande preocupação para os eleitores, mesmo em meio à epidemia.
“A questão da gestão da pandemia está intimamente ligada à questão da prevaricação. Houve um escândalo ligado à vacinação de vários altos funcionários, incluindo o ex-presidente Martin Vizcarra e seu ministro da Saúde”, lembra ele. “Para muitos peruanos, se a crise sanitária continua é porque existem privilégios, o que faz com que a população uma vez que um todo não tenha acesso à rede de saúde uma vez que deveria.”

Prevaricação
Três dos 18 concorrentes à presidência estão na mira da Procuradoria peruana, que coleta provas e depoimentos para levá-los a julgamento, assim uma vez que 134 candidatos ao Congresso por suspeita de prevaricação, de consonância com o portal “La República”.
Keiko Fujimori, a primogênita do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), atualmente recluso, ficou 16 meses em prisão preventiva, até maio de 2020, por envolvimento no esquema de propinas pagas pela Odebrecht. Ela está sendo investigada por supostamente ter recebido contribuições ilegais da Odebrecht em suas campanhas presidenciais em 2011 e 2016.
O ex-presidente Ollanta Humala (2011-2016), candidato sem chance de vencer as eleições de domingo, segundo as pesquisas, também está sendo investigado no mesmo caso. Humala e sua esposa, Nadine Heredia, passaram nove meses em prisão preventiva entre 2017 e 2018 pelo caso Odebrecht, e ambos devem ser julgados em um horizonte próximo. O par é denunciado de ter recebido ilegalmente US$ 3 milhões pela campanha que levou o militar emérito ao poder em 2011. Somente uma pena em última instância impede um cidadão peruano de se candidatar a uma eleição.
O outro candidato da minoria que deve ir a julgamento é Daniel Urresti, um general emérito sem chance de continuar para o segundo turno. Urresti foi absolvido em 2018 pelo homicídio do jornalista Hugo Bustíos na região andina de Ayacucho em 1988, durante o conflito armado interno. Mas, em 2019, a Suprema Corte anulou a decisão, o que obrigará Urresti a ser julgado novamente depois das eleições.
Se um desses candidatos for eleito presidente, só poderia ser levado a julgamento posteriormente o término de seu mandato de cinco anos.

Voto obrigatório e pandemia
No Peru, o voto é obrigatório e o Escritório Nacional Eleitoral (ONPE) prevê a participação de “nove em cada dez peruanos”, apesar de o país viver sua semana mais mortal em 13 meses de pandemia, com 279 mortes por dia em média, segundo Ministério da Saúde.
O ONPE habilitou 11.402 locais de votação, três vezes mais do que o normal, para tentar evitar aglomerações durante a a eleição nas cidades da selva amazônica, planalto andino e litoral, onde Lima está situada. As seções eleitorais foram desinfetadas no sábado (10). O país acumula 54.285 mortes em 1,6 milhão de casos.
O presidente em exercício, Francisco Sagasti, declarou que “de forma alguma” a votação seria adiada. O ministro do Interior, José Elice, indicou que cerca de 20 mil policiais se dedicarão exclusivamente ao controle do cumprimento das medidas sanitárias durante a votação.
“A pandemia afetou a campanha. Há inquietação, distanciamento e indiferença no país, que se transformaram em falta de crédito nos políticos e em sua capacidade de governar a crise sanitária”, observa Alberto Vergara. “Muita gente não vai comparecer” acredita o perito, principalmente entre as classes altas, que podem expor: ‘Não vou votar e pago a multa’. É difícil saber qual candidato vai se beneficiar da abstenção.
“Tem havido uma politização bastante significativa das questões de saúde, aponta Arthur Morenas. A direita defende que empresas privadas possam comprar vacinas e imunizar seus funcionários. A esquerda alega, pelo contrário, que essa decisão criaria um mercado lucrativo para vacinas, o que já tem sido visto com os testes de PCR ou acesso a leitos em clínicas privadas, explica o pesquisador em Ciências Políticas associado ao Instituto Francês de Estudos Andinos (IFEA) e ao Instituto das Américas.

Eleição legislativa
Para o Congresso peruano, as últimas pesquisas apontam para um plenário ainda mais fragmentado que o atual, o que não ajudará a resolver a profunda crise política que o Peru atravessa. Desde 2016, o país teve duas composições de parlamento. Executivo e Legislativo travam uma luta pelo poder, com processos de impeachment e atos de rescisão.
“Isso torna o país ingovernável”, lamenta Alberto Vergara. Em 2016, o presidente de direita Pedro Pablo Kuczynski foi eleito e outro partido de direita – o de Keiko Fujimori – obteve a maioria no Congresso.
“Alguns pensaram que poderiam governar juntos, mas eles se mataram, um pouco inédito em 50 anos. Desde logo, ficou estabelecido que a destituição do presidente e a rescisão do Congresso fazem parte do jogo político. Quando esses dois botões atômicos constitucionais se tornam armas normais é muito perigoso”, adverte o professor do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade do Pacífico em Lima. “Nos piores momentos da pandemia, ver os políticos capazes de tudo para tomar o poder revelou sua irresponsabilidade. Isso também explica por que os peruanos não têm mais crédito”, conclui.
O novo presidente, que deve tomar posse em 28 de julho — dia em que o Peru comemora o bicentenário de sua independência — terá que enfrentar a crise na saúde, a recessão econômica e a crise política, refletida na situação em que houve três presidentes ao longo de somente cinco dias em novembro de 2020.

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