Não há o que comemorar no Peru

O teor das urnas no Peru ainda se mostra inconclusivo. Com mais de 90% dos votos apurados, a margem entre os candidatos é bastante estreita, com vantagem de menos de meio por cento para a candidata da direita conservadora, Keiko Fujimori, sobre o da esquerda radical, Pedro Castillo.

Quem sair vencedor desta contenda terá que encarar a presença do oponente pelos próximos cinco anos e um Congresso fragmentado, no qual mais de 90% de seus membros não têm qualquer experiência política.

Ou seja, a instabilidade política do país, que nos últimos cinco anos teve cinco presidentes, sai mais reforçada da disputa.

Dois candidatos populistas, dois modelos antagônicos para tentar salvar o Peru de duas crises gravíssimas, que se somam ao descrédito dos peruanos no sistema político: a econômica, que sofreu a maior contração em 30 anos, com queda de 11% do PIB, e a sanitária, que põe o país no topo mundial de mortes per capita por Covid-19.

Praticamente empatados, Keiko e Castillo representam a minoria da sociedade e o abismo entre o anti-fujimorismo e o anti-comunismo. Não se mostram capazes de aglutinar os peruanos, nem de tirar o país da paralisia, posteriormente sucessivos escândalos — da Lava Jato ao Vacinagate.

Terceira vez candidata à Presidência, Keiko já esteve presa por corrupção e não foge à tradição que acomete os presidentes peruanos nas últimas três décadas, como réus na Justiça. Como defensora do neoliberalismo, ela recebeu inédito apoio de detratores tradicionais de seu pai, Alberto, recluso por crimes contra a Humanidade.

Os que votaram na candidata de direita desprezam o protótipo defendido por Pedro Castillo, professor de ensino médio e sindicalista, que prega a reforma da Constituição e a nacionalização de recursos naturais. Em geral, ambos são conservadores na agenda social, contrários ao aborto e ao casamento entre gays.

O vencedor deste tenso embate lidará com um Congresso difuso, que tem metade dos parlamentares sem lealdade partidária, por ter se filiado de última hora para as eleições. Peru livre, o partido de Castillo tem 37 das 130 cadeiras; Força Popular, de Keiko, 24.

Neste contexto, não há o que comemorar. Com Keiko Fujimori ou Pedro Castillo presidente, o país inicia um terceiro turno, à sombra da incerteza política, que se cristaliza em propostas fracassadas anteriormente.