Por si só, a reunião de João Donato e Jards Macalé no álbum Síntese do lance – gravado e assinado conjuntamente pelos artistas – é caso histórico na música brasileira.

Aos 87 anos, o pianista, compositor e arranjador acreano João Donato de Oliveira Neto habita universo privado, povoado por musicalidade nascida da mistura fina da levada brasileira com ritmos da América Latina – de Cuba, em próprio – e com o jazz. Uma bossa que é somente de Donato.

Aos 78 anos, Jards Anet da Silva – vulgo Macalé – pavimentou pelas margens trajetória lajedo em universo músico tão rico quanto o de Donato, porém mais sombrio. Abordando gêneros musicais como samba, samba-canção e pranto de forma pouco convencional, com evocações da bossa nova e do blues (ecoado sobretudo no esquina ruminado), Macalé driblou maldições e paira atualmente como entidade da MPB.

Álbum lançado pela gravadora Rocinante na sexta-feira, 22 de outubro, e com edição em LP prevista para o fecho deste ano de 2021, Síntese do lance faz história sem promover a efetiva simbiose entre os estilos dos dois artistas.

Talvez por opção dos três produtores musicais do disco – Marlon Sette (trombonista responsável pelos arranjos), Pepê Monnerat e Sylvio Penha – ou talvez pela química resultante no encontro dos artistas no estúdio da gravadora na cidade fluminense de Araras (RJ), a musicalidade de Donato se impõe sobre o mundo de Macalé ao longo das dez faixas do álbum Síntese do lance.

E, como a bossa nova é o ponto de contato mais nítido entre os universos musicais de Macalé e Donato, o choro-canção Um amplexo do João – parceria de Macalé com Joyce Mulato – se enquadra muito no molde de Síntese do lance, álbum que é mais de João Donato do que de Jards Macalé, mas que merece ser louvado pelo simples fato de subsistir.