Médico, prefeito de Porto Feliz propaga fake news em entrevista a rádio e diz que quem já pegou Covid tem ‘imunidade permanente’

O prefeito de Porto Feliz (SP), Antônio Cássio Habice Prado (PTB), falou nesta segunda-feira (14), durante entrevista a uma rádio da cidade, que pessoas que já tiveram Covid-19 tem “imunidade permanente”. Especialistas negam que uma pessoa fique imune.

A fala do prefeito foi gravada logo depois de a pergunta de uma ouvinte da rádio sobre o tempo em que uma pessoa contaminada por Covid precisa esperar para tomar a vacina. Antônio Cássio Habice Prado é formado em medicina pela Universidade de São Paulo (USP) e possui pós-graduação em Medicina Intensiva, profissional em UTI, pelo Instituto Terzius.

Ao responder, ele diz que, na sua opinião, quem teve a doença não deveria tomar a vacina e que não acredita ser uma boa teoria as pessoas se vacinarem logo posteriormente se curarem da Covid pois pode “reativar a própria doença”.

“Ela está imunizada. Vários trabalhos mostram que tem uma imunidade permanente em quem já teve a Covid. Eu acho um risco importante a pessoa se vacinar ainda quando é próximo da doença”, disse.
O comentário gerou dúvida entre os ouvintes que acompanhavam a entrevista pelas redes sociais. Muitos deles questionaram a fala do prefeito.

Em nota, o Sindicato dos Médicos de Sorocaba e cidades da região (Simesul) informou que o tratamento precoce é ineficaz e que pessoas que já tiveram coronavírus podem contrair a doença novamente.
“Por isso, o uso de máscaras deve ser continuado tanto por vacinados quanto pessoas já infectadas para protegerem-se a si mesmas como às outras pessoas. Pelo menos até que um número mais significativo de pessoas esteja vacinado.”

O que dizem os especialistas?
O diretor da Fiozcruz de São Paulo, Rodrigo Stabeli, afirmou ao Portal Web Rádio Xis que as pessoas que testaram positivo para a Covid-19 não estão imunes da doença.

“O problema é que muitos políticos estão trabalhando na onda de transmitir essas notícias falsas como negacionismo. Logo, quando eu digo que uma pessoa que já pegou Covid-19 tem imunidade permanente, eu estou negando o que a ciência fala. A ciência já mostrou que existe reinfecção pelas mesmas linhagens.”
Outrossim, ele explica que o coronavírus é uma doença sindrômica, ou seja, ela afeta vários órgãos do corpo e o sistema imunológico. Por esta razão, é necessário que as pessoas que tiveram a doença esperem pelo menos um mês para receber a vacina.
“Como nós não temos uma imunidade permanente, é recomendável que a pessoa que já teve Covid e que já passou um mês da doença, vá se vacinar. É importante, a vacina salva vida.”

A médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcomo, afirmou que é fundamental que todos entendam a importância da vacinação neste momento em que a transmissão da doença no Brasil continua alta.

“Quem deve ser vacinado de acordo com os protocolos das idades, o cronograma, das prefeituras, do PNI, todo mundo, mesmo quem teve Covid-19 precisa ser vacinado duas semanas depois de, seguindo o intervalo das vacinas, hoje, disponíveis no Brasil, que são praticamente todas de duas doses”, explica.

O diretor da Fiocruz também detalha que nenhuma vacina reativa a doença e que é importante que as pessoas que já foram confirmadas com Covid-19 recebam a vacina para o fortalecimento do sistema imunológico.

“Na verdade, isso é um negacionismo para a ciência. Nenhuma vacina reativa a doença, porque as vacinas são feitas ou por vírus morto, portanto não tem como reativar a doença, ou por mecanismos novos de vacinas que você reativa o seu sistema imune. Você usa parte de um pedaço da molécula do vírus ou você usa material genético do vírus.”

Pesquisas
Um estudo da Escola de Medicina da Universidade de Washington apontou que as pessoas que se recuperaram de casos leves de Covid-19 continuam produzindo anticorpos neutralizantes do coronavírus quase um ano depois de a infecção. Entre os achados do estudo está a perspectiva de que tais células podem persistir a vida toda.

O estudo, divulgado em maio deste ano, explica que durante uma infecção viral, as células imunes produtoras de anticorpos se multiplicam rapidamente e circulam no sangue, elevando os níveis de anticorpos. Depois que a infecção é resolvida, a maioria dessas células morre e os níveis de anticorpos no sangue caem.

Já um estudo feito pelo PHE ({sigla} em inglês para Saúde Pública da Inglaterra) com mais de 20 mil profissionais de saúde britânicos sugere que pessoas infectadas por Covid-19 têm alta probabilidade de possuir imunidade (83%) por pelo menos até cinco meses.
Entretanto, há evidências de que aqueles que têm anticorpos ainda podem ser capazes de transmitir o vírus. A análise é preliminar (pré-print) e não foi revisada por outros pesquisadores. O estudo foi divulgado em janeiro deste ano.