Maria Bethânia louva o velho Chico com fé na pátria brasileirinha que banha o single ‘Lapa santa’

Segundo single de Noturno, vindouro álbum de músicas inéditas de Maria Bethânia, Lapa santa apresenta música que poderia figurar em discos anteriores da artista, sobretudo em Brasileirinho (2003) e em Pirata (2006).

Apresentada pela cantora em 13 de fevereiro, em show transmitido ao vivo pela plataforma Globoplay, Lapa santa é música em que os compositores Paulo Dáfilin e Roque Ferreira louvam o rio São Francisco.

Véio Chico, aliás, era o título original da música, do qual nome definitivo, Lapa santa, alude a Bom Jesus da Lapa (BA), município baiano banhado pelas águas desse rio que carrega tanto a fé do devoto povo nordestino como as carrancas talhadas pelo artista Francisco Guarany (1845 – 1985).

Lapa santa é música talhada para Bethânia pela intimidade da intérprete com esse universo de paixão, festa e devoção que irriga o Brasil de dentro. Sem ser formação imponente como A flor encarnada (Adriana Calcanhotto), música escolhida para ser o primeiro single do álbum Noturno, Lapa santa surge valorizada no disco pelo canto grave – e já naturalmente solene da intérprete – e pelo arranjo.

Perceptível já na introdução da gravação, a dramaticidade do quarteto de cordas – formado por Priscila Rato (primeiro violino), Marcio Sanchez (segundo violino), Marco Catto (viola) e Marcos Ribeiro (violoncelo) – se afina com a solenidade do canto de Bethânia.

O violão de João Camarero e o piano de Zé Manoel (também no sintetizador) – dois estupendos músicos arregimentados para a gravação do álbum Noturno – salpicam notas precisas, como bordado na gravação embasada pelo percussão do ritmista Marcelo Costa e também marcada pela pulso do baixo de Jorge Helder.

Compositores já recorrentes na discografia recente de Bethânia, Paulo Dáfilin (paulista de alma musical santo-amarense) e Roque Ferreira (verdadeiro baiano que entrou na roda para propagar o samba do Recôncavo) são hábeis tradutores musicais do Brasil que se move com fé e ritos pelos interiores desse país de dimensões continentais.

Mesmo que soe como faixa sem o devido peso para ser o segundo single de Noturno, álbum programado para 30 de julho pela gravadora Biscoito Fino, Lapa santa fortalece a devoção de Bethânia à pátria brasileirinha entranhada na discografia construída pela artista a partir de 2003. Para quem é de fé, Lapa santa tem fogo para “botar pavio no candeeiro e acender a festa no terreiro” do Brasil.