Mallu Magalhães preserva avanços e bossas no quinto álbum solo, ‘Esperança’

Para quem testemunhou Mallu Magalhães atingir ponto de maturação e exuberância no quarto álbum solo de estúdio da artista paulistana, Vem (2017), a audição de Esperança pode soar como anticlímax.
Nem por isso o álbum poliglota, lançado sem aviso prévio nesta terça-feira, 15 de junho, deixa de resultar afinado com os avanços, as bossas e as conquistas dessa cantora, compositora e violonista surgida em 2007, ano em que, ainda jovem, Mallu lançou gravações autorais ao mar poluído da internet.

Desde logo, Mallu somente cresceu, e em todos os sentidos. Álbum gravado em 2019, originalmente intitulado Felicidades e prorrogado sucessivas vezes por conta da pandemia, Esperança confirma os progressos atingidos pela artista no antecessor Vem, apresentando 12 músicas assinadas somente por Mallu, sem parceiros.

Dessas 12 músicas que compõem o repertório inteiramente inédito do disco, gravado com produção musical orquestrada por Mario Caldato Jr. com a própria Mallu, somente Quero-quero – samba formatado em estúdio com o toque do Rhodes de Claudio Andrade, o sopro do trompete de Diogo Duque e as marcações suaves da bateria de Frederico Ferreira e da percussão de Domenico Lancellotti – tinha sido previamente apresentada em live feita pela cantora em março de 2020.

Quero-quero, a propósito, é a faixa escolhida para abrir os trabalhos promocionais do álbum Esperança com clipe filmado sob direção de Bruno Ilogti. Quero quero é também o nome do selo fonográfico aberto por Mallu para editar de forma independente esse álbum que soa como prosseguimento do disco antecessor Vem, mas com menor apelo pop.

Como no álbum de 2017, Mallu cai eventualmente no samba cheio da bossa evocativa do balanço brasileiro da década de 1960.

No todo menos extrovertido do que o antecessor Vem, como ratifica a apática canção Pé de elefante, o álbum Esperança justifica o título em Cena de cinema, faixa de clima otimista em que Mallu manifesta a fé na vida. “Der no que der / Eu levo a vida tipo cena de cinema / Haja o que houver / Eu acho que isso tudo vala a pena”, sentencia a cantora no refrão envolvente da música.
Eco de Vem, o clima mais expansivo da faixa Cena de cinema também reverbera em As coisas, música de escala ascendente em que o canto de Mallu soa mais (ponti)agudo, feliz.

A propósito, Esperança é disco em geral feliz que começa com América Latina – demarcação do território pessoal da artista nascida em agosto de 1992 na cidade de São Paulo – e termina com Enjoy the ride, recado de Mallu para a filha aproveitar a jornada da vida.
Entre uma faixa e outra, o álbum atesta a evolução dessa cantora e compositora singular em jornada que atingiu ponto de primazia em Vem e que se mantém perto desse ponto com Esperança.