Atualmente com 65 anos, Leila Maria entrou em cena há 42 anos com o show Essa gente morena, apresentado em 1979 no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal da artista. Lançou o primeiro single em 1982 e editou o primeiro álbum somente em 1997 no embalo da boa realização, em emissora carioca de rádio, de gravação da cantiga Get out of town (Cole Porter, 1938).
Nessa trajetória pavimentada de forma independente, Leila Maria ganhou progressivo reconhecimento no meio musical como uma das grandes cantoras do Brasil, sobretudo quando dá voz a canções norte-americanas de acento jazzístico.

Ainda assim, o público sempre foi reduzido. Poucos brasileiros conheciam as habilidades vocais da cantora até este ano de 2021, quando Leila apareceu como uma das concorrentes da primeira temporada do programa The Voice +. Leila ficou entre as quatro finalistas e, mesmo perdendo para Zé Alexanddre, conquistou público inédito na carreira da cantora.

Por isso mesmo, na primeira apresentação pós-The Voice +, Leila Maria refez o caminho que a levou até o programa, fazendo do show – transmitido ao vivo do palco do Teatro Rival Refit, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), na noite de sábado, 24 de abril, através do canal do Rival no YouTube – um cartão de visitas para quem a conheceu somente neste ano de 2021.
Depois de cantar o samba Morena dos olhos d’água (Chico Buarque, 1966) a capella na coxia, enquanto era exibido vídeo com retrospecto da carreira da artista, Leila entrou no palco do Rival e escalou os contornos do samba Ladeira da preguiça (Gilberto Gil, 1973), uma das seis músicas que interpretou no programa The Voice +.

Terminados os sambas, Leila cantou músicas que refizeram, em ordem cronológica, o percurso fonográfico da artista.
Leila Maria no show transmitido ao vivo em 24 de abril do palco do Teatro Rival Refit

Se Leila tivesse somente cantado na transmissão ao vivo, o show-live teria sido primoroso, ainda que a intérprete tenha revelado certa instabilidade com a letra de Você vai ser o meu escândalo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969), música do terceiro álbum da artista, Canções do amor de iguais (2007), disco pautado por repertório de inspiração homoafetiva.

A questão é que Leila Maria falou demais entre os números do show, prejudicando a fluidez da apresentação ao vivo. Até porque muitas falas resultaram emboladas, sem foco.

Para piorar, o terço final do show foi dominado por enfadonhos merchandisings dos acessórios e figurinos usados pela cantora no programa The Voice + – com direito a uma apresentação em vídeo e outra presencial das proprietárias das duas marcas. A publicidade poderia ter sido feita de forma mais concisa, sem interromper o show por longos minutos.

Quando acabou a propaganda ao vivo, restou tempo somente para mais uma música, Night and day (Cole Porter, 1932), número em que ficou evidenciado, mais uma vez, a alta qualidade do canto de Leila Maria que, momentos antes, havia interpretado You’ve changed (Carl Fischer e Bill Carey, 1942) com raro domínio vocal, sem nada dever às divas do jazz da atualidade.

Porém, a artista precisa ter consciência de que somente uma grande voz não basta para fazer um grande show. Um diretor que guiasse a cantora em cena seria presença oportuna, em apresentações futuras, para podar excessos, editar as falas e fazer a artista se concentrar unicamente na essência do canto prodigioso.