Jovem Dex une trap ao Nordeste com letras ‘sem papas na língua’ sobre o que ele vê e vive

Rapper baiano canta verdade de Feira de Santana na base do subgênero do rap dos EUA. Ritmo faz tanto sucesso na região que gera ‘guerra de contratação’ entre produtoras; ouça podcast. “Um pivete novo criando umas paradas loucas”. É assim que Jovem Dex explica o nome artístico que vem do escorço “O Laboratório de Dexter”. A diferença é que o laboratório do rapper baiano é o estúdio.
O  Portal Web Rádio Xis Ouviu conta histórias de cinco jovens MCs de trap que fazem muito sucesso e furam a bolha do estilo.

David Sá Duarte desponta na cena do trap, subgênero do rap nascido em Atlanta, no sul dos EUA, e desde março tem lançado faixas que vão formar seu primeiro álbum, “É o Trap Memo?!”.
O rapper de 19 anos sempre teve a música e a violência por perto. Ele foi criado em um dos bairros mais perigosos de Feira de Santana, na Bahia, e conta que já teve que desviar de corpos no solo.
Tudo isso se reflete nos versos que escreve desde a juventude. “Ai, meu Deus, faço a mágica pra você se drogar / Ai, meu Deus, imagina esse otário na mira da AK” canta em “Tapa”, por exemplo.
Jovem Dex no clipe de ‘Tapa’, música do primeiro álbum ‘É o trap memo?!’

O fato de falar explicitamente sobre drogas, armas e sexo, temas recorrentes em suas letras, não é uma questão para Dex.
Muito pelo contrário, é um pouco que está na base do trap, termo que significa armadilha, mas era uma gíria para lugar onde se vende droga em Atlanta.
“A gente não tem papas na língua, a gente fala o que a gente vê e vive. Não tem essa de ‘não pode falar isso, não pode falar aquilo’. A nossa cultura é liberdade de expressão”, diz ao Portal Web Rádio Xis.
“Se não gostou, é só não escutar, mas a gente não vai deixar de fazer, de se expressar. Imagine se a gente não falasse, mano? Nem ia existir a cultura, não é a toa que está famosa mundialmente. Muita gente se identifica com a parada”.

Segundo Dex, a cor de seu pele também influencia no som que faz.
“Nasci predestinado a fazer trap por ser preto, tá ligado? Creio que quem é preto, quem é favelado, entende melhor, porque a gente precisa passar por umas paradas que só o preto favelado passa para poder entender a cultura assim a flor da pele mesmo, ao pé da letra”.

A batida hipnótica, grave e arrastada do trap é a queridinha da juventude dos Estados Unidos, com astros uma vez que Lil Baby, 24kGoldn e Playboi Carti — este último é a maior referência do artista baiano.
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Dex diz que faz “música para a nova geração” e o motivo que pega tanto entre os mais jovens é simples: liberdade de expressão.

Ele conta que já foi julgado por usar a calça mais para grave, boné de lado ou simplesmente por se vestir de forma dissemelhante: “No trap, não tem isso. A gente fala o que quer nas batidas, a gente vive do nosso jeito, a gente é livre”.
A teoria de viver estiloso e usando roupas de marca é algo que atrai o rapper. Rola uma ostentação nas letras, clipes e no jeito de viver que fazem parte do conjunto de um “trap star”.
“Gosto de viver assim, gosto de me portar como artista, a galera do trap é assim. O lifestyle que me chama a atenção, e eu consigo colocar isso em cima das batidas”, explica.
Além da música, Dex é vidrado em tendência e passa boa parte do seu tempo pesquisando isso: “Amo e respiro moda. Ainda vou ser estilista, tá ligado? Se não for estilista, vou ser protótipo, ou então vou ser os três: artista, modelo e estilista nessa p****”.
“Através da moda, a gente consegue se expressar, consigo expressar meu humor com minha vestimenta”.

Não dá para falar dos novos nomes do trap sem ressaltar a força da cena no Nordeste.
Jovem Dex faz parte da produtora baiana Hash, que também produz nomes uma vez que Brandão e Leviano. Já a 30praum, do Ceará, é outro exemplo de sucesso com Teto, Wiu e Matuê. Esse último, cantor de “Kenny G”, é um dos sócios da empresa.
Ter duas grandes produtoras de rap na região é importante e dá brecha para outros artistas locais. Aliás, elementos e gírias do Nordeste são incorporados naturalmente em letras e clipes.
“Nav”, música que marca a estreia de Dex em 2018, é um exemplo disso, quando o rapper aparece em um sítio, andando a cavalo e de quadriciclo. O clipe tem mais de 89 milhões de visualizações.
“Na época, a gente não tinha referência do Nordeste na cena – tem Matuê, mas eu nunca tinha visto um vídeo em referência ao nordestino mesmo. A gente chegou e botou cavalo, rancho, quadriciclo, pé no chão, na terra mesmo, mandacaru, mato”.
“Agora a gente está colhendo frutos… Eu sempre soube que o nordeste ia ‘bagaçar’ tudo. Além de ter gente com muito, muito talento, nosso sotaque ajuda também com a musicalidade, residência certinho o autotune”, diz e solta uma risada de comemoração.

“Só me lembro do tempo que brigava com os meninos na rua por desculpa de gude. Tem coisa mais importante para gente focar”.
E o foco tem um resultado evidente: dominar as paradas de streaming no Brasil, assim uma vez que os gringos conseguiram nos Estados Unidos.
É onde Jovem Dex tem certeza que o trap vai estar em breve: “Quem quiser que se una com trap, abra o olho, corra junto, dê uma oportunidade, porque estamos chegando”.

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