Desastre em Petrópolis

“Esse desastre tem culpados que todos conhecem”, diz João Henrique de Orleans e Bragança, herdeiro da família real que fundou e foi a dona de quase toda a área urbana de Petrópolis, no Rio de Janeiro. “São os vários prefeitos e vereadores da cidade que incentivaram a ocupação dos morros da região.”

“Falava-se claramente disso nos anos 1970. Os políticos traziam gente de Nova Iguaçu e Caxias, davam terrenos em áreas de risco, sem escritura nenhuma, em troca de as pessoas mudarem o domicílio eleitoral para a cidade. ‘Venham para Petrópolis que tem terreno para construir’, diziam na época. E até hoje é assim”, afirma Orleans e Bragança.

“Não tinha Ministério Público, não tinha preocupação com o lugar, não tinha associação de moradores. Seja de esquerda, centro ou direita, os políticos não ligam. Só fazem obras para aparecer e não querem saber se quase metade dos moradores de Petrópolis está em área de risco. Não ligam se morrerão soterrados”, exalta-se o príncipe.

Frequentador da cidade no final dos anos 60, durante a infância e a juventude, João Henrique se afastou da região serrana na década seguinte, quando passou a ir para a residência do pai em Paraty. E é lá que mora até hoje. “Meu pai teve imóveis em Petrópolis, mas se desfez há muito tempo”, conta ele.

Quando tinha por volta dos 14 anos, ele passava longos verões em Petrópolis, mas ficava na residência da avó de um colega, em frente ao rio Piabanha, um dos que transbordou na inundação desta semana.

Ele conta um pouco das boas recordações que tem daquela época. “Lembro dos bailes de Carnaval. Tínhamos um grupo que andava de bicicleta chamado Amarelinho. Nossas sete bicicletas eram amarelas e terminávamos o passeio na sorveteria Central, onde havia sorvete de queijo, coisa que não se via no Rio. Era o despertar da paquera”, diz hoje, aos 67 anos.

Foi o trisavô de João Henrique, o imperador d. Pedro 2º, que fundou a cidade em 1843. Por isso, até hoje é conhecida como Cidade Imperial. A história, no entanto, começou 21 anos antes, em 1822, quando dom Pedro 1º, a caminho de Minas Gerais, pousou em uma fazenda ali e se encantou com a região. Tanto que comprou para si a fazenda do Córrego Seco.

João Henrique não sabe o porquê desse nome. “Não sei se havia mesmo um córrego seco, mas meu trisavô construiu lá sua residência de verão, que hoje é o Museu Imperial de Petrópolis”, conta. Dom Pedro 2º passou muitos verões na cidade, de onde despachava e decidia os rumos do império.

A certa altura, resolveu colonizar a região usando o princípio da enfiteuse, pelo qual doava lotes para os imigrantes. Em troca, receberia uma taxa anual e um imposto chamado laudêmio, de 2,5%, cobrado quando o novo proprietário do imóvel decidisse vendê-lo. Esses valores ainda são recebidos por seis primos de João Henrique, que herdaram os rendimentos.

“Acho que esse sistema deveria terminar”, diz João Henrique, que diz também pagar pela enfiteuse à Marinha, por ter uma residência às margens do mar em Paraty. “Quando dom Pedro 2º fez isso, o laudêmio fazia sentido. Ele doou a cidade inteira, mais de mil lotes, sem receber nada.”

“E não era um privilégio da família real. Outras famílias, além da Igreja Católica e da Marinha, ainda recebem por meio disso até hoje. Mas, na minha opinião, isso já está ultrapassado como ideia”, finaliza o príncipe.