Segundo maior país do continente africano e um dos mais pobres do mundo, a República Democrática do Congo (RDC), onde nasceu Moïse Mugenyi Kabagambe – o jovem espancado até a morte no Rio de Janeiro –, é palco de conflitos praticamente desde que foi criada.
É importante distinguir o país, cuja capital é Kinshasa e que até 1997 era chamado de República do Zaire, de seu vizinho, a bem menor República do Congo, que tem como capital Brazzaville.

Assolada por uma guerra civil encerrada em 2003, a RDC tem uma das situações humanitárias mais desafiadoras do mundo atualmente, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur).

Setores do país são considerados pela ONU uma emergência de nível 3, o mais elevado em termos de urgência de necessidade de ajuda. Atualmente, a missão da ONU no país é comandada por um brasileiro, o General Marcos de Sá Affonso da Costa.

Somente entre os anos de 2017 e 2019, mais de 5 milhões de pessoas se deslocaram internamente no país, sem contar as centenas de milhares, que fugiram para nações vizinhas, como Angola e Zâmbia, principalmente.
A situação é principalmente preocupante na região de Kasai, onde estão mais de 896 mil pessoas deslocadas. Muitas retornaram para lá depois do término da guerra civil e encontraram suas propriedades completamente destruídas e nenhum parente vivo.

De concordância com relatório do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça, em 2020, 113 pessoas da República Democrática do Congo deram ingresso no processo de reconhecimento como refugiado, no país. O relatório mostra que 28 pedidos foram deferidos, 39 indeferidos e 34 processos foram extintos.

Nos registros da ONG Cáritas, Moïse Kabagambe chegou ao Brasil em 2011, aos 14 anos. Segundo a coordenadora da organização, Moïse era o irmão do meio da família que, junto com o mais velho e o caçula, saíram de avião da República Democrática do Congo e pousaram em solo brasileiro.
A mãe de Moïse, Lotsove Lolo Lavy Ivone, explica que eles são da etnia Hema, envolvida em uma guerra tribal civil com os Lendu, na região de Ituri.
O confronto entre os dois grupos, predominantemente pastores e agricultores, respectivamente, do nordeste do país, teve um período de maior intensidade durante a guerra civil, mas episódios violentos de conflito armado perduram ainda hoje.

Guerra civil
Os violentos conflitos na RDC, que atingem principalmente civis, vítimas de agressões armadas, saques, ataques sexuais e assassinatos, tem como origem rivalidades étnicas e brigas por recursos naturais, já que o país, apesar de sua pobreza econômica, é fértil em recursos minerais, com minas de diamantes, cobre, cobalto, ouro e nióbio.
De concordância com a ONU, rebeldes hutus do país vizinho Ruanda, responsáveis por um genocídio em 1994 que matou aproximadamente 800 mil tutsis e hutus moderados, cruzaram a fronteira e se refugiaram na RDC.
Em 1997, Mobutu Sese Seko, presidente desde 1965, foi forçado a se exilar, e o líder rebelde Laurent D. Kabila passou a ocupar a função.
Kabila, por sua vez, se dissociou de seus patrocinadores de Ruanda, que passaram a estribar outra rebelião, dessa vez contra o próprio Kabila. A região inteira se envolveu no conflito, o que provocou uma guerra civil.
De um lado, estavam o governo da RDC, Angola, Zimbábue e Namíbia. Do outro, os rebeldes da RDC, apoiados por Uganda, Ruanda e Burundi. O confronto ficou conhecido como a “Guerra Mundial da África”.
Kabila foi assassinado em 2001 por seu guarda-costas, e seu filho, Joseph Kabila, assumiu a presidência da RDC em seu lugar.

A primeira transição de poder civilizada da história da República Democrática do Congo só aconteceria em janeiro de 2019, quando Félix Tshisekedi tomou posse como presidente, posteriormente vencer eleições marcadas por caos, ameaças e urnas incendiadas no final do ano anterior – e com resultado impugnado por Joseph Kabila.
A violência, porém, continua. Nesta quarta-feira (2), pelo menos 60 pessoas foram mortas em um ataque de milícia a um acampamento de deslocados no leste do país, segundo o dirigente de um grupo humanitário local e uma testemunha.

Ambas as fontes disseram ao Portal Xis que a milícia Codeco foi responsável pelos assassinatos, que ocorreram no acampamento de Savo, na província de Ituri.
Combatentes do Codeco mataram centenas de civis em Ituri nos últimos anos e forçaram milhares a fugir de suas casas, segundo a ONU. Ataques recentes também atingiram acampamentos de deslocados.