Crestomatia de Célia ecoa o suingue e a exuberância do quina da artista nos anos 1970

Compilação é fruto da súbita popularidade obtida postumamente pela intérprete em rede social juvenil. ♪ “Para uma cantora como Célia, a gente não dá, a gente pede conselho”, disparou Maysa (1936 – 1977) ao ser apresentada à paulistana Célia Regina Cruz (8 de setembro de 1947 – 29 de setembro de 2017) no programa de Flávio Cavalcanti (1923 – 1986).

Era 1970 e Célia acabara de impressionar a exigente Maysa ao cantar no badalado programa da TV Tupi com a orquestra do maestro e pianista Erlon Chaves (1933 – 1974), não como caloura, mas já como uma revelação da música brasileira naquele ano de 1970.

Essa curiosidade é contada pelo produtor Thiago Marques Luiz no texto escrito para o encarte da edição em CD da coletânea dupla Célia – Uma antologia – Sucessos e raridades.

Com 30 fonogramas selecionados por Thiago com o jornalista Renato Vieira, a compilação está sendo lançada pela Warner Music, única gravadora que ainda aposta na edição de antologias no formato físico de CD.

Fruto da súbita popularidade obtida postumamente por Célia em fevereiro de 2020 no TikTok, rede social juvenil onde usuária postou gravação que embutia sample da gravação do samba David (Nelson Angelo, 1970), faixa do primeiro álbum da cantora, a antologia de Célia é primorosa pelo repertório – exemplo do gosto refinado da artista – e por reverberar o suingue e a expressividade do canto dessa voz nunca ouvida pelo Brasil com a devida atenção depois de o boom inicial da cantora na primeira metade da década de 1970.

O mérito da coletânea é trazer para o CD gravações da produção fonográfica de Célia ao longo dos anos 1970, década de 27 das 30 gravações.

As exceções são os três registros – lançados em 1982 no quinto álbum de Célia, Amor – das então recentes músicas Eu te amo (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1980), Amor (Ivan Lins e Vitor Martins, 1981) e Guarânia guarani (Taiguara, 1981).

Além do elevado valor documental das faixas extraídas de cinco álbuns nunca editados em CD e de singles obscuros lançados por Célia nos anos 1970, caso da gravação da marcha-rancho É tempo de matar a saudade (Dora Lopes e Clayon), lançada em compacto simples de 1973, a antologia soa aliciante sobretudo pela exuberância do canto de Célia.

Esse canto ainda impressiona pela desenvoltura com que caiu no suingue de músicas como o samba-rock A hora é essa presente de Roberto Carlos e Erasmo Carlos para o segundo álbum da cantora, Célia, gravado com arranjos de Arthur Verocai e lançado em 1972.

Os discos da retomada expuseram a força do canto maturado de Célia. Porém, os discos dos anos 1970 – resumidos com critério na antologia dupla – já revelaram grande cantora, ainda em tempo de ser realmente descoberta pelo Brasil como foi por Maysa em 1970.