Comerciantes e prestadores de serviço sofrem com impostos que não param de chegar

Comerciantes e prestadores de serviço em todo o Brasil estão sofrendo um duplo problema durante a pandemia. Enquanto as vendas caem, as cobranças de impostos não param de chegar.

Quem tem restaurante anda se dividindo entre o atendimento parcial no salão e as contas. Karla teve que dispensar funcionários e, diante do insignificante movimento, tenta faturar o que dá com as entregas.

“Os impostos são altíssimos e a gente é obrigada a pagar durante pandemia. A conta é grande. E não fecha a conta. Todos os encargos dos funcionários, o Danfe, Darf. Tem aluguel, IPTU do imóvel. Está muito complicado mesmo”, destaca Karla Brunelli, proprietária do restaurante.

É um fenômeno comum a grandes cidades como São Paulo: estabelecimentos que nasceram ao redor de prédios comerciais e escritórios de grandes empresas dependiam desse movimento para vender as refeições, mas como algumas empresas fecharam e outras mantém funcionários trabalhando em residência, a clientela não apareceu mais.

A pandemia também provoca prejuízos ao obrigar estados e municípios a tomar medidas de restrição de funcionamento. Os infectologistas são unânimes em declarar que estas medidas são fundamentais para paralisar a disseminação do vírus, mas os comerciantes precisam de suporte para ressarcir as perdas nas vendas.

A crise fez 58 entidades do setor de serviços e comércio publicarem um manifesto em jornais cobrando mais apoio do poder público para transpor a pandemia.

“Nós sentimos uma falta de organização mais geral. Logo, nós tentamos mostrar isso para o governo desde março do ano passado. Continuamos o diálogo. Mas de qualquer forma temos pago essa conta e precisamos de linhas de crédito ou de isenção de tributos ou alguma compensação, qualquer plano específico para que a gente possa se restabelecer e restabelecer os milhares e até milhões de empregos que foram fechados pelo caminho, ao longo dessa pandemia”, diz Glauco Humai, presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers.

Joelson Sampaio, economista da Fundação Getúlio Vargas, diz que as políticas de auxílio não têm chegado na ponta, principalmente para os pequenos negócios:
“Se você demora para ajudar, se você demora para oferecer um auxílio, elas acabam não passando pela crise, elas acabam ficando no meio do caminho e isso, com certeza, afeta o mercado de trabalho também. Logo, não só ter mais politicas para essas empresas, mas, principalmente, políticas mais eficientes que cheguem mais rápido é importante para a gente conseguir ajudar aquelas empresas que mais precisam e são mais sensíveis à crise”.

Karla tentou suporte no Pronampe, o Programa de Crédito para Micro e Pequenas Empresas, em julho d2 2020, mas recebeu uma resposta dizendo que foi identificada escassez na qualificação dos requisitos necessários. E ficou sem o dinheiro.
“A gente queria um crédito com juros mais baixos que a gente conseguisse diluir no nosso fluxo de caixa e conseguisse manter o nosso negócio mais saudável, mas não foi possível. Foi recusado. A gente esperava que, por parte do governo, a gente pudesse ter um respaldo financeiro e que não veio. Tenho muitos amigos que fecharam os negócios. A gente conseguiu sobreviver, estamos dia a dia recalculando, fazendo conta para manter o negócio. Mas a gente se sentiu muito triste, sem opção, desamparada”.