Brasileiros relatam medo e humilhação em prisões na fronteira dos EUA

Entre outubro de 2018 e setembro de 2019 o número de vistos de turismo negados pelos EUA a brasileiros teve um aumento significativo, o maior índice dos últimos 14 anos. Houve um crescimento de mais de 45% na comparação com a taxa do ano fiscal anterior, entre outubro de 2017 e setembro de 2018, chegando a 18,5%, de acordo com dados do Departamento de Estado norte-americano.

Em El Paso, onde a maior parte dos brasileiros que tentam cruzar a fronteira irregularmente fica presa, o tratamento aos imigrantes é mesmo o de dissuadir novas tentativas.

‘Olha, a impressão que a gente tem é que tudo é para a gente se sentir humilhada e não querer mais voltar. E conseguiram. Foram os piores dias da minha vida’, contou a professora Graziele Soares, 35 anos, uma das brasileiras deportadas no voo que chegou ao Brasil no dia 8 deste mês.

Ela, como as demais mulheres entrevistadas, conta que ficaram presas por cerca de 20 dias, até serem deportadas. Nesses dias, não tinham informação, só puderam tomar banho duas ou três vezes. Tiveram que por fora todos os seus pertences, com exceção dos documentos.

‘É feito para a gente querer voltar (para o Brasil) mesmo’, disse Fiama Inácio, 27 anos.

Como as outras pessoas ouvidas pela reportagem, Graziele, que vive em Governadores Valadares, deixou o Brasil em janeiro, com o marido e o filho de 10 anos. Com o fim do contrato de trabalho como professora na rede municipal e dívidas acumuladas, planejou por seis meses tentar a vida dos EUA.

‘Minha irmã que já vive legal lá me incentivou, me deu uma ajuda, nós vendemos algumas coisas e fomos. Eu fiz por causa das dívidas mesmo’, contou Graziele.

Em fevereiro de 2019, a professora e sua família já tinham tentado legalmente o visto, mas foi recusado. ‘Só me disseram que nós estávamos ‘inabilitados para entrar no país”, contou. Dessa vez, nem resolveu tentar.

A professora, assim como Fiama e a agricultora Sidnéia Pereira, 36 anos, resolveu juntar a família e tentar o que chamam de ‘cai-cai’, o sistema chamado pelos norte-americanos de ‘catch and release’, em que o imigrante irregular, ao ser pego pela imigração e pedir asilo, era solto e tinha permissão para viver nos EUA até uma decisão judicial. A maioria, sem endereço fixo, dificilmente é encontrada pelas autoridades novamente.

‘Minha irmã foi assim em junho do ano passado e foi tudo bem. Ficou um dia em um abrigo e foi liberada. A gente pensou que se foi tudo bem com ela, valia a pena tentar’, contou Fiama. Com marido e a filha de 6 anos, a jovem costureira, que mora em Goiânia (GO), decidiu tentar.

No entanto, a lei norte-americana mudou no final do ano passado, justamente pela alegação de que os imigrantes nunca mais se apresentavam à Justiça e a maioria não tinha razões válidas para pedir asilo.

Atualmente, os imigrantes são presos na fronteira México-EUA, levados para um dos centros de detenção no lado norte-americano, onde homens e mulheres são separados –no caso das brasileiras, os filhos ficaram com as mães. Lá, depois de alguns dias, são ouvidos em uma entrevista, não sabem por qual autoridade, por um telefone. Ao terem a entrada negada, entram na lista de deportação.

A nova lei ajudou a engordar a quantidade de pessoas presas nas fronteiras, já que a informação de que o ‘cai-cai’ mudou não chega a muita gente. E a dificuldade de tirar vistos só aumenta.

Fiama nem mesmo cogitou visto. Lembra que a irmã chegou a tentar quando ainda era casada, tinha empresa em seu nome, registro e todos os documentos, e pretendia apenas fazer turismo. Ainda assim, teve o visto negado. ‘Eu que não tenho carteira assinada, não tenho casa própria, que ia adiantar? Não iam nos dar mesmo’, diz.

Da mesma forma, Sidnéia e o marido, pequenos agricultores em Roraima, e a filha de 14 anos, sabiam que não iriam conseguir o visto, já que não têm renda fixa, carteira assinada e ganham pouco. Mas amigos que vivem nos EUA os incentivaram a tentar o ‘cai-cai’.

‘Estudamos por uns seis meses como fazer. Vendemos um gado que a gente tinha, gastamos uns 8 mil e fomos. A gente queria dar uma vida melhor para nossa filha, ela tem o sonho de fazer faculdade, mas aqui é muito difícil’, disse

Sidnéia e a família ficaram em Governador Valadares ao retornar, na casa de Graziele, que se ofereceu para hospedá-las. Largada pelo voo de deportação em Belo Horizonte, a família não tinha dinheiro para voltar a Roraima. Com ajuda de parentes, conseguiu comprar três passagens de ônibus.

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