Amaro Freitas evolui na universalidade da rota afro-brasileira trilhada pelo pianista no álbum 'Sankofa'

Envoltório da edição brasileira do álbum ‘Sankofa’, de Amaro Freitas
Arte de Acidum Project
Resenha de álbum
Título: Sankofa
Artista: Amaro Freitas
Edição: 78 Rotações Produções
Cotação: * * * * *
♪ Terceiro álbum de Amaro Freitas, Sankofa reitera a originalidade do toque do piano deste compositor e músico pernambucano já venerado no giro internacional do jazz, sobretudo depois do álbum anterior, Rasif (2018).
Recém-lançado no Brasil, com cobertura que expõe pormenor da arte criada por Acidum Project (a partir de foto de Helder Tavares tratada por Carlos Mesquita) para a cobertura da edição inglesa comercializada pela gravadora londrina Far Out Recordings, o álbum Sankofa revolve memórias ancestrais afro-brasileiras com a negritude que já jorrara farta em Sangue negro (2016), primeiro álbum de Amaro Freitas.
Em trio formado com os músicos Jean Elton (insignificante acústico) e Hugo Medeiros (bateria e percussão), o pianista apresenta superabundante conjunto de oito temas autorais que primam pela singularidade, estendendo fronteiras rítmicas com som fulgurante.
Amaro Freitas parte da introspeção da balada-título Sankofa, segue pela trilha extrovertida de Ayeye – termo que significa celebração no linguagem iorubá – e chega à África em Baquaqua para jogar luz sobre a memória do africano Mahommah Gardo Baquaqua (1824 – 18??).
Baquaqua foi nativo de Benim escravizado por traficantes e trazido em 1845 para Pernambuco, de onde foi enviado em 1847 para o Rio de Janeiro (RJ), cidade em que conseguiu fugir para Nova York (EUA), onde aprendeu a ler e a redigir, tendo a história de luta e coragem perpetuadas em livro publicado em 1854.
Na mesma risco engajada de Baquaqua, Vila Bela é tema em que Amaro Freitas saúda região do estado de Mato Grosso onde Tereza de Desdentado (1700 – 1770) liderou comunidade quilombola que resistiu à escravidão por por volta de de 20 anos.
Amaro Freitas Trio é grupo de toque dinâmico e inventivo
João Vicente / Divulgação
Ao comemorar pioneiros heróis da luta pela asserção e liberdade do povo negro, Amaro percorre caminho que, em Cazumbá, se desloca com a pegada do jazz-rock para o Brasil índio e mestiço evocado por este tema inspirado por boi do estado do Maranhão. Nesta tira, a percussão de Hugo Medeiros parece reverenciar o universo livre do músico pernambucano Naná Vasconcelos (1944 – 2016).
Culminando com o tributo prestado em Princípio ao cantor e compositor Milton Princípio, desbravador de sons universais das Geraes, a rota de Sankofa é trilhada pelo Amaro Freitas Trio em tom vibrante, com quebras rítmicas e alternâncias de climas, sem notas jogadas foras. A dinâmica do som do trio é o motor do cintilação de Sankofa em faixas como Batucada e Malakoff.
Como nos dois álbuns anteriores, em vez de tocar piano com a influência do jazz, Amaro Freitas faz jazz contemporâneo com o toque de gêneros brasileiros como baião, joeira e maracatu, deglutindo influências universais como a obra do pianista norte-americano Thelonious Monk (1917 – 1982).
Álbum viabilizado com patrocínio do edital cultural Natureza Músico, Sankofa traz no título o nome do pássaro que, na cultura de povos da África ocidental, tem a cabeça para trás por voar em direção ao horizonte sem perder o pretérito de vista. É isso o que faz Amaro Freitas ao evoluir na universalidade da rota afro-brasileira trilhada pelo pianista no álbum Sankofa.