Adriana Calcanhotto faz show de voz e violão no Rio de Janeiro

“Parece tudo novo”, admitiu Adriana Calcanhotto, em mix de encantamento e espanto, para o público que assistiu na noite de sexta-feira, 20 de agosto de 2021, à estreia mundial da turnê de voz e violão com a qual a artista planeja percorrer os Estados Unidos, a Europa e o Brasil ao longo de 2022.

Sentada no banquinho que a acomodava no centro do palco do Teatro Simples Rio, a sós com o próprio violão, a artista expressou a sensação de novidade ao rever coxia, holofotes e – sobretudo – a plateia, presencialmente ausente das apresentações virtuais feitas pela cantora ao longo de 2020.

Afinada com essa sensação compartilhada pelo público, pelo crítico e pela equipe técnica que pôs de pé o inédito show, Calcanhotto fez tudo tanger novo de novo, como se fosse a primeira vez.

“Não esquecerei essa noite”, enfatizou a cantora, ao término do show, já no meio do quarto bis, oferecido com canções autorais incontornáveis nos roteiros dos shows da artista, casos de Mentiras (1992), Metade (1994 e Vambora (1998).

A fala escapou da retórica típica dos jogos de cena e sedução do público. Em meio a um momento pandêmico ainda pleno de incertezas, foi realmente privativo se deparar no palco com artista que, munida somente da voz (em boa forma) e do violão autossuficiente, conseguiu expressar os sentimentos do mundo ao desfiar rosário de canções que constituem, desde 1990, obra de assinatura pessoal e intransmissível.

Até nessa habilidade Calcanhotto se confirma herdeira pós-tropicalista de Caetano Veloso e, talvez não por eventualidade, abriu o show com cantiga do compositor, O nome da cidade (1984), reproduzindo a introdução do show Olhos de onda (2013).

A propósito, por ambos os shows serem recitais de voz e violão, houve inevitáveis interseções no roteiro. Back to black (Amy Winehouse e Mark Ronson, 2006), Três (Marina Lima e Antonio Cícero, 2006), Seu pensamento (Adriana Calcanhotto e Dé Palmeira, 2008), Inverno (Adriana Calcanhotto e Antonio Cícero, 1994), Esquadros (1992), Devolva-me (Lilian Knapp e Renato Barros, 1966), Maresia (Paulo Machado e Antonio Cícero, 1981), Mais perfumado (2011) – samba do qual a cantora improvisou somente um trecho – e Depois de ter você (Cantada) (2001) deram as caras no palco emoldurado por cenário de Mana Bernardes que evocava as ondas sugeridas pelo figurino usado pela cantora no recente espetáculo Margem (2019).

Mas, o idoso soou como novo porque – cabe enfatizar – ir a um show nesse momento conturbado do mundo ainda é novidade e porque a voz da artista estava renovada como a emoção do público, perfilado ao término na infalível Cariocas (1994), arrematada com citação do prefixo vocal do samba Ela é carioca (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1963).
Dentro desse contexto próprio, a voz de Calcanhotto foi ao infinito, amarrando plateia e cantora em um só sentimento, para usar versos do poeta mineiro.

♪ Eis as 24 músicas do roteiro seguido por Adriana Calcanhotto em 20 de agosto de 2021 na estreia mundial do show de voz e violão apresentado pela artista no Teatro Simples Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):
1. O nome da cidade (Caetano Veloso, 1984)
2. Senhas (Adriana Calcanhotto, 1992)
3. Rosa dos ventos (Chico Buarque, 1970)
4. Era pra ser (Adriana Calcanhotto, 2016)
5. Inverno (Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, 1994)
6. Seu pensamento (Adriana Calcanhotto e Dé Palmeira, 2008)
7. Tive notícias (Adriana Calcanhotto, 2020)
8. Veneno bom (Adriana Calcanhotto, 2021)
9. O que me cabe (Adriana Calcanhotto, 2021) – trecho
10. A flor encarnada (Adriana Calcanhotto, 2020)
11. Dois de junho (Adriana Calcanhotto, 2020)
12. Devolva-me (Lilian Knapp e Renato Barros, 1966)
13. Esquadros (Adriana Calcanhotto, 1992)
14. Três (Marina Lima e Antonio Cícero, 2006)
15. Vidas inteiras (Adriana Calcanhotto, 1998)
16. Back to black (Amy Winehouse e Mark Ronson, 2006)
17. Cariocas (Adriana Calcanhotto, 1994) – com citação do prefixo vocal de Ela é carioca (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1963)
Bis:
18. Vambora (Adriana Calcanhotto, 1998)
19. Maresia (Paulo Machado e Antonio Cícero, 1981)
20. Mais perfumado (Adriana Calcanhotto, 2011) – trecho
21. Mentiras (Adriana Calcanhotto, 1992)
22. Metade (Adriana Calcanhotto, 1994)
23. Depois de ter você (Cantada) (Adriana Calcanhotto, 2001)
24. Tudo igual (Adriana Calcanhotto, 2020)