90 anos de João Gilberto: a incansável procura por gravações inéditas do 'pai' da bossa nova

Admiradores do músico vasculham internet para encontrar trabalhos do artista, que fez sua última turnê em agosto de 2008. O cantor João Gilberto durante show no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no centro da cidade, em agosto de 2008
Ari Versiani/AFP/Registo
A última turnê de João Gilberto (1931-2019) aconteceu em agosto de 2008. A série de quatro shows que passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador foi como uma epifania para Pedro Fontes.
“Ali meu trem descarrilou rumo ao poço que é João Gilberto”, conta o pesquisador músico em entrevista à BBC News Brasil. “Fui aos dois shows no auditório do Ibirapuera. Saí de lá disposto a aprofundar minha pesquisa e encontrar coisas raras e inéditas dele”, completa.
Desde logo, Fontes tem sustentado seu meio no YouTube com gravações até logo desconhecidas do grande público.
MAURO FERREIRA: João Gilberto, perpetuado pela bossa que nunca envelhece, tem os 90 anos celebrados em álbum coletivo com gravações inéditas
Em janeiro deste ano, por exemplo, trouxe à tona uma gravação de João Gilberto em show realizado na França, em 1989, e trechos do programa gravado na TV Tupi, em 1971, ao lado de Gal Costa e Caetano Veloso, em um material disponibilizado pelo produtor Ion de Freitas Fruto.
Fontes passa parte do seu tempo fuçando em grupos de discussão e páginas em redes sociais dedicadas à obra de João Gilberto. Lê entrevistas antigas e recortes de jornais em procura de pistas.
Conversa com técnicos de som, produtores e gente que eventualmente possa ter qualquer registro ainda inédito. Nesta quinta-feira (10/06), dia em que a figura mais representativa da Bossa Nova completaria 90 anos, Fontes compartilhou com a BBC News Brasil um dos seus últimos achados.
O ano é 1982. João Gilberto faria uma apresentação no Teatro Castro Alves, em Salvador. Diferentemente do seu primeiro show na cidade depois de a volta dos EUA, em 1978, o artista estava mais arredio com a mídia e o público em universal.
Para se ter uma teoria, ele pediu que a passagem de som fosse feita de madrugada, para diminuir a presença de intrusos. Já no show, durante a música Milagre, de Dorival Caymmi, João é interrompido por um fotógrafo. “Ele ficou chateado. E é uma pena, porque ele quase não gravou essa música, cantava-a pouco”, diz Fontes. Ouça inferior:
A lista de raridades que está no radar do pesquisador músico é grande. “Tem o show dele em Salvador, de 2008, o último da curso. É uma apresentação peculiar, com pedidos da plateia, com músicas como Coqueiro Velho. Tem o show dele no Teatro Amazonas, em 1997. Durante muito tempo houve um burburinho de que o João poderia gravar um álbum novo, logo é provável que exista um material inédito de estúdio. E tem os ensaios e encontros com amigos, já que ele vivia tocando e cantando em todo lugar”, afirma.
Assim como Fontes, outros pesquisadores e admiradores vasculham acervos físicos e digitais detrás de novidades. A teoria de que seja provável encontrar vestígios de João Gilberto passa pelo fato de que ele trabalhava exaustivamente para aprimorar sua música.
“A verdade é que paladar muito do meu trabalho. Interessa-me dividir o melhor provável os acordes, a emissão conjunta e uníssona da voz e do violão. Essa preocupação, que uns chamam de excesso e preciosismo pedante, zero mais é do que paixão pelo que faço”, disse o músico ao portal O Xis em 1979.
Por isso, há sempre no radar as gravações caseiras, entre amigos, que foram registradas sem pretensão mercantil. Em 2019, Manoel Fruto topou com uma dessas raridades ao digitalizar por volta de de 40 fitas em péssimo estado que um produtor lhe entregou.
“Existem dois tipos de pesquisador: o que procura em tudo quanto é lugar e o que age aleatoriamente, às vezes por instinto. Eu me enquadro no segundo caso”, diz Manoel em entrevista à BBC News Brasil.
O cantor João Gilberto durante show no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no centro da cidade, em agosto de 2008
Wilton Junior/Estadão Teor/Registo
Manoel joga parado, mas está sempre muito posicionado. Em uma semelhança com o futebol, seria o centroavante, camisa 9, que sabe quando, onde e como a esfera vai chegar. Numa dessas, faz o gol. Foi mal ele encontrou registros de João Gilberto cantando músicas como “Ela Desatinou”, de Chico Buarque, “Largo da Lapa”, de Wilson Batista, e “Eclipse”, do cubano Ernesto Lecuona.
Os registros ficaram no ar por pouco tempo, já que Manoel foi obrigado a retirá-los do ar a pedido do espólio do artista. “Às vezes nós queremos vulgarizar, sem interesse mercantil nenhum, mas tudo que envolve o João Gilberto ganha uma repercussão incalculável. Mas é aquilo: João é um mundo, um labirinto. Daqui a 40 anos vai ter gente fuçando baú procurando alguma coisa dele”, comenta.
Das gravações que estão digitalizadas e ainda inéditas, Manoel Fruto aceitou publicar em seu meio no YouTube, junto com esta reportagem da BBC News Brasil, a melodia “Ave Maria no Morro”, de Herivelto Martins, gravada com voz e violão, no estilo minimalista característico do artista, em 1991. A música foi gravada também no LP João, lançado no mesmo ano, mas com orquestração do americano Clare Fisher, que não agradou ao artista. Ouça inferior o registro:
Eduardo Naoto não se considera um pesquisador, unicamente entusiasta da obra de João Gilberto. Ainda assim, sua procura por obras raras do baiano de Juazeiro é antiga. “Em 2006, 2007, não havia as facilidades hoje disponíveis através do YouTube, era necessário qualquer esforço online para conseguir os álbuns em boa qualidade”, diz Naoto à BBC News Brasil.
Ao vasculhar páginas na internet, descobriu um show do artista na Holanda, gravado em um DVD peculiar com a Metropole Orkest, em 1978. A performance nunca foi veiculada ou comercializada oficialmente no Brasil.
Em parceria com Fontes, que achou um réplica sendo vendido na internet, Naoto entrou em contato com o vendedor, que lhe enviou um trecho do vídeo, com João Gilberto cantando Wave, de Tom Jobim.
Discos para desvendar em residência – ‘João Gilberto en México’, João Gilberto, 1970
Naoto também tem uma lista privado de preciosidades. “Sei da existência de uma apresentação em Montreal, no Canadá, em 2001, e uma no Barbican, em Londres, no ano anterior. Há ainda shows no Sesc Vila Mariana, em 1998, em que consta que ele cantou um samba até logo inédito em sua voz: “Que rei sou eu?”, de Herivelto Martins. E as apresentações de sua última turnê, sobretudo a de Salvador”, afirma.
Entre buscas e descobertas, os pesquisadores já sabem o que é raro ou inédito. “A gente fica perambulando pela internet, logo há uma noção do que está atingível e do que é novidade, inclusive do ponto da autenticidade”, afirma Naoto.
Fontes diz alguma coisa semelhante, mas afirma que às vezes é preciso se verificar com mais de uma pessoa. “Em uma das fitas da TV Tupi, havia uma incerteza se o violão era tocado por ele ou pela Gal Costa. Pedi ajuda ao Cris Rousseau, que se certificou que não era o João”, explica.
Francês enamorado por música do Brasil
Christophe Rousseau é um francês enamorado pela música brasileira, que mantém no Youtube um meio com interpretações de músicas da Bossa Nova, sobretudo as de João Gilberto, e também com raridades do artista.
Foi ele o responsável por digitalizar as fitas de um experimento feito por João Gilberto na residência do fotógrafo Chico Pereira, em 1958, e que estavam com o pesquisador sueco Lars Cranz. Os áudios foram publicados em 2009.
“Estava discutindo com pessoas críticas à Bossa Nova em um fórum de internet. Fiz uma resguardo enfática. O Lars viu o meu glosa e mandou um email dizendo que tinha algumas coisas do João Gilberto. Recebi em minha residência os arquivos raros do encontro na residência do Chico. Mixei os áudios e disponibilizei na internet”, afirma Rousseau à BBC News Brasil. Ele diz que ninguém do espólio do artista pediu para tirar a apresentação da internet.
No início de junho, já como comemoração dos 90 anos de João Gilberto, a rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, publicou três fitas de rolo captadas pelo músico e historiador baiano Carlos Coqueijo (1924-1988), companheiro de João Gilberto, nos anos de 1959 e 1960. Duas fitas foram gravadas na residência de Coqueijo e uma terceira durante um show de João Gilberto e Vinicius de Moraes, na Associação Atlética da Bahia, em 1960.
As gravações foram repassadas à pesquisadora Edinha Diniz, que as encaminhou ao IMS. “É alguma coisa que possui um grande valor histórico. É uma forma de iluminar a história. O João deve ter gravado “Desentoado” sete ou oito vezes, e em cada uma delas há alguma coisa dissemelhante. Encontrar essas versões e se debruçar sobre elas mostra que sempre há uma categoria nova a se desvendar”, disse à BBC News Brasil Luiz Fernando Vianna, coordenador da rádio Batuta.
Entre as 38 músicas interpretadas por João Gilberto nas três fitas, Vianna cita aquelas que mais lhe chamaram a atenção. “Na lista tem uma melodia intitulada Viu, mas que se labareda Nosso Olhar, do Sérgio Ricardo. Ele cantou essa música no show de 2008, em São Paulo, suprimindo algumas palavras. Tem Sem Você (Vinicius de Moraes) e Zero Além (Mário Lago/Custódio Mesquita), que ele nunca gravou. E tem marchinhas, músicas de domínio público, que ele ouvia na puerícia em Juazeiro, como Cavalo Oceânico e Mariposa Bonitinha”, afirma.
Enquanto uma legião de fãs e pesquisadores tentam encontrar as raridades de João Gilberto, existem pessoas que trabalharam com o músico e mantêm registros raros do artista. Técnico de som em Salvador desde 1976, João Américo Bezerra tem em seu ror mais de 800 horas de gravações em exibições realizadas na capital baiana, a maioria delas no Teatro Castro Alves.
A história com João Gilberto começou em 1978, em um show em Salvador. Américo não fora contratado para trabalhar no evento, mas estava no lugar visível e na hora certa.
“O som estava ruim e o João Gilberto reclamava sem parar. O técnico responsável era Paulo Salomão, que era meu companheiro e permitiu que eu acompanhasse a passagem de som. Salomão foi ao palco checar os microfones e pediu que eu ficasse na mesa de áudio. Nesse momento, o João disse que havia melhorado. Todos no teatro olharam para mim, mas eu não fiz zero”, diz Américo à BBC News Brasil.
A nomeada se espalhou e chegou aos ouvidos de João Gilberto, que a partir daquele momento requisitou a presença do técnico em todas as suas apresentações em Salvador. Foi assim em 1982, quando João Gilberto foi interrompido por um fotógrafo que atrapalhou a tradução de Milagre, fita que chegou às mãos de Fontes há alguns meses.
“Parecia que o sujeito estava com uma metralhadora. Aquilo o incomodou demais. João era preciosista, mas ali foi demais. Todo mundo ouviu”, relembra o técnico.
Os encontros são marcados por histórias curiosas. Em 1986, pessoas influentes na Bahia, como o poeta e letrista José Carlos Capinan, tiveram a teoria de levar João Gilberto para uma apresentação no Festival do Interno, realizado ao ar livre e sem o silêncio integral que o artista sempre prezou.
“Nunca imaginei que aquilo fosse dar visível. Quando Tuzé de Abreu (produtor, músico) me contou, dei risada”, lembra Américo. Mas João Gilberto não só aceitou o invitação, como entrou no palco às 4h da manhã.
Uma hora antes do show, o técnico de som foi ao camarim a pedido do artista. “João tocou duas notas de um violão que não dava pra escutar zero. Avisei que estava inferior. Por dentro, estava desesperado. Logo, ele pegou outro violão e tocou um pouco. Disse que aquele estava melhor. Ele sorriu e emendou: ‘pois é, mas eu gostei mais do primeiro’. Fomos para o palco sem passar o som. Por incrível que pareça, o áudio estava limpo, ele gostou e deu visível”, conta Américo
Américo já tentou digitalizar o seu ror há alguns anos, mas o projeto não foi para frente por falta de financiamento. Além de João Gilberto, o material bruto tem outras raridades, como um show de Gilberto Gil com repertório da apresentação feita em Lagos, na Nigéria, em 1977, e as duas exibições que Hermeto Pascoal e Sivuca fizeram juntos no ano seguinte.
Outro que mantém guardado documentos e arquivos de boa parte da curso de João Gilberto é o seu ex-empresário, Gil Lopes, que o assessorou entre 1984 e 2008. Eles se conheceram quando João Gilberto foi a Lisboa para um show no Coliseu dos Recreios, espetáculo que também está na mira dos pesquisadores.
Foi nessa viagem que João Gilberto conheceu Maria Firmamento Harris, moçambicana que desavença na justiça para ser reconhecida como companheira do artista.
Lopes rodou o mundo com João, em shows, gravações e ensaios. “Tudo que eu tinha dei ao Zuza Homem de Mello para o livro dele”, afirma à BBC News Brasil. A biografia feita pelo repórter falecido em outubro de 2020 tem previsão de publicação pela editora Companhia das Letras no segundo semestre deste ano. Lopes já postou em seu meio no YouTube imagens de João Gilberto em Nova York, em 1988, antes de uma série de shows do artista na cidade. Há outros materiais mantidos em sigilo.
O empresário lamenta a falta de novos trabalhos de João Gilberto e culpa as gravadoras pela falta de interesse na obra do artista. “Ninguém quer lançar mais zero do João, nosso maior artista. Qual o motivo?”, indaga. “Por que ninguém foi detrás do blu-ray que saiu no Japão com a apresentação de 2006? Eu ofereci cá no Brasil, mas nenhuma porta se abriu. João Gilberto, no Brasil, não interessa”, afirmou.
Disputa judicial
O espólio de João Gilberto é objectivo de longa e arrastada disputa judicial, envolvendo direitos autorais e os royalties de seus discos, sobretudo aqueles lançados entre 1959 e 1961, pela EMI-Odeon, na temporada de asseveração da Bossa Nova.
No encerramento de maio, o Tribunal de Justiça do Rio deu proveito de desculpa ao espólio do artista no processo contra a gravadora Universal (que incorporou a EMI), que terá de depositar R$ 18 milhões aos herdeiros do músico.
“Espero que essa decisão possa trazer à tona a obra do João Gilberto novamente. Nenhuma contenda judicial é motivo para tamanho apagamento. Estamparam-no como um miserável nos últimos anos. Ele é muito mais do que aquilo. João Gilberto é uma revolução permanente, a vanguarda da música brasileira. A sua obra está nascendo agora, porque é um projeto de Brasil, de um país que está sendo aniquilado culturalmente”, finaliza Lopes.
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